Summer of 1909, Frank Weston Benson Os homens criaram datas para rezar, dançar e até para comer chocolates. Só se esqueceram de que não existem horas para ser feliz. Nem para morrer.
uma merda só hoje. não sei porque o dicionário do meu computador insiste em não aceitar esta palavra. merda. foda-se agora. tá tudo uma merda mesmo. triste sabe?, nada a ver com depressão. apenas triste. a vida tem cada coisa, honey. que custo a entender. e, no fim, não entendo mesmo. nem tomei banho ontem. e, surpresa, ou não: não me importo. estas calças e estes tênis não me deixam sentar confortável. e o palito com o qual prendo os meus cabelos machuca a minha nuca. sonhei que andava só de camisola. camisolinha. mas, acordada, sei: não sou mais criança. uma pena. ser gente grande é das coisas mais doídas que já vi. pior do que quando a mamadeira atrasa. sinto dores nas costas. e um sono que me faria dormir mil anos. se pudesse. e quem pode? só os mortos mesmo têm esta regalia. e tem muito sangue preso por aqui. talvez até demais. sorry pelas palavras duras. sorry, também, por usar palavras não nossas. mas algumas coisas precisam ser ditas em línguas estranhas. para que eu pense que continuam a ser segredos só meus. meus cigarros acabam incrivelmente rápido. ou é meu tempo que anda lento? não sei. mas, que saber?, em meio a tudo isto que desconhecemos já não sei mais o que é secreto e o que pode ser escancarado, gritado aos berros. roucos. porque a voz é fraca. ou, então, porque não sabe falar. hoje: nada na agenda. muito bom. ou não. percebe que não decido nada... meu lugarzinho é mesmo em cima do muro. de onde vejo a vida passar. e ela vai passando passando... e comprar sapatos não ameniza nada. só me faz sentir que tenho pés a menos. sinto preciso de uma ligação. um fio que me segure. mesmo que um fiozinho prata numa embalagem de presente. estou na linha, querida, mas nem mesmo o trem passa para me dizer: hi, dear, quero passar. então eu fico. como, talvez, sempre tenha ficado. mais um cigarro. e um chorinho de criança no fundo. junto às marteladas do pedreiro do vizinho. carros e carros e carros. os sons existem. mas o silêncio é ensurdecedor. não os sons. da vida de fora. mas o silêncio. daqui. das palavras que não vêm nunca. nunca. nunca. nunca mesmo.
então, que fazer?
me calo. nos pés.
te amo.
bisou .