segunda-feira, junho 25, 2007

a contrapartida

Denis Olivier


“não sei de que material seco são feitas
as perdas”


anéis, Bruna Beber






domingo, junho 17, 2007

La moindre des choses, Nicolas Philibert



todas as minhas beiras viriam, sempre, daqueles que não vêm a ser.




sexta-feira, junho 08, 2007

Ian Sanderson



"What did I leave untouched on the doorstep---"


Sylvia Plath







“Se você me perguntar como são as pessoas daqui, eu responderei: como em todo lugar! A
espécie humana é absolutamente uniforme. A maior parte trabalha quase todo o tempo para viver, e o pouco que lhes resta de liberdade amendronta-os de tal modo que procuram todos os meios para se livrarem dela. Ó, destino do homem!”


J. W. Goethe,
em “Os sofrimentos do jovem Werther”




domingo, junho 03, 2007

ana, a palindrômica

(closer)


você não sabe deste nó.


sexta-feira, junho 01, 2007




sua ciência acumulava-se em folhas de papel recortadas de jornais e em rascunhos feitos a mão, metodicamente guardados em pastas empilhadas nas estantes empoeiradas do almoxarifado onde vivia.
quase tudo o que sabia jazia fora de si. guardava consigo, apenas, o sentir das coisas do mundo, sua vida. seu coração.



quarta-feira, maio 16, 2007

Sugar Blues


Lillian Bassman

um corpo em chamas
rolando pela escada
de incêndio do meu prédio
era você
vírgula
meu bem
vírgula
era você
interrogação

eu avisei para não brincar
de molhar meus barcos
de papel

eu avisei que não se pode viver
como se faltassem
poucos dias para o carnaval

você indo embora com o foco da coqueluche
e aliviando a vizinhança
você subindo aos céus com os passarinhos mortos
por crianças más
com estilingue

era você se desfazendo
na doce baforada
da janela aberta
numa manhã de calor

era você em pó
em papel picado
no tapete do asfalto
na roupa branca dos médicos
e no antigo toldo do açougue
do andar de baixo

agora eu vou rezar pela sua alma
por um emprego novo
e por um vício a menos
enquanto passeio pela cidade
num ônibus circular
numa quarta-feira de cinzas.



Bruna Beber

terça-feira, maio 08, 2007

porque sonhei com Al Berto naquela tarde no front.

já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras galáxias, e o remorso

um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo

Al Berto
de «Trabalhos do Olhar» 1976/82: Sete dos Ofícios, 1980


quinta-feira, abril 26, 2007

Love Letters, Charles Trevor Garland


casais normais

buscam consumar

uma simbiose


na parte que me cabe

busco ao teu lado

uma outra solidão



Pierre Masato
http://maleficobar.blogspot.com/


sexta-feira, abril 20, 2007

página de autobiografia explícita

Ecstasy, Maxfield Parrish


nos supermercados do mundo
liquidei - me dono de tudo
sem saudades do que fui
hoje não mais me iludo
com máscaras de demiurgo
ou qualquer papel de fundo
assumo o desejo bruto
sentimento irresolúvel e impuro
fruto do mais direto prelúdio
a um espírito sem contramuros



[do livro Simulações] Sandro Ornellas

domingo, abril 15, 2007

encore

Mada Primavesi, Gustav Klimt



não fico mais.
as ruas estão cansadas dos barulhos das castanholas.
tacos de saltos,
tudo é rouco.

sarjetas velhas me pedem a última dose.
eu canto baixo
e dou um tiro.

saúdo os que se recolhem antes.
te prego cinco vezes na mesma cruz
fumo os filtros dos amores teus
e tinjo a casa do vermelho que sobraste.

eu também temo.



sábado, abril 07, 2007

Death and Life (detalhe), Gustav Klimt


nada fala
tira de papel
lápis sem ponta para dizer de ti.

não quero mais saber de horas
instante fechado no colo da moça branca.

e já não é bela.
tem vinte e nove
filhos postiços dentes de mentira clareada.
cola os pedaços da cara quebrada
em meio aos cetins das festas que não foram.
entendes, agora, por que me esvaio?

me nivelo na parede rouca
da aspereza dos encantos teus.
ah, deus da boca silente,
montador de rimas das palavras minhas.

uma unha quebrada
na balada da noite meia. a vida
cala e consente no meio-fio.
navalha de prata. velha.

e tudo cheira a mofo aqui.

é como se me roubasses o coração.
e os dedos.
escondo as balas para que a criança não as veja.
e não me leve também os meus cabelos.



terça-feira, abril 03, 2007

Starry Night, Vincent van Gogh


"Je ne suis rien.
Je ne serai jamais rien.
Je ne peux vouloir être rien.
À part ça, je porte en moi tous les rêves du monde."



Bureau de Tabac - Fernando Pessoa




quinta-feira, março 29, 2007

Bonjour Tristesse, Martin Eder



na rasgadura do peito exposto
você foi mais um pouco...



terça-feira, março 27, 2007

Jean loup Sieff



“...Letra maiúscula também sangra...”


Ednei Pereira Rodrigues


sábado, março 24, 2007




Amo-te como o vinho e como o sono,
Tu és meu copo...


Álvares de Azevedo, em “A Lagartixa”





sábado, março 17, 2007

Reinhard Simon



a transitoriedade das coisas táteis.


teu não-falar.
vasinho partido que eu colei quieta.
no vão entre a cômoda e a escavadeira.





quinta-feira, março 08, 2007

Durwood Zedd



o moço dos pés descalços
era o menino com sandálias de couro.
dedinhos sujos.

tinha os cabelos em caracóis
e mãozinhas pequeninas.
mamava mamadeira.

usava um colar de sementes que arrebentou
e uma camisa com o desenho de um cocar.
tomava tragos largos
fumava cigarros baratos
tinha quatro mulheres de uma vez


e eu o amei por seiscentos e sessenta e seis dias.


o número da besta.
eu.





terça-feira, março 06, 2007

Casa das Rosas. Rascunho número dois. Tema: A máquina. De escrever.

José Paulo Andrade,
www.pbase.com/jandrade


e mesmo que passado o tempo
das folhas velhas das saudades findas,

eu grito, ainda:
quero de volta
minha Olivetti
1977!

eu preciso rasgar meu coração.




sábado, março 03, 2007

mais uma vez. as palavras da gaveta. do fundo. porque algumas coisas se repetem. sempre.

Études pour - Les trois singes, Francine Van hove


Medo

eu tenho um medo. guardado na gaveta de baixo, bem no fundo, com corrente e cadeado. eu tenho um medo trancado. debaixo das revistas velhas. dos cadernos usados. dos livros já lidos. dos papéis amarrotados. eu tenho um medo escondido. pior que de escuro, lugar alto, homem do saco. um medo segredo. o mesmo, desde pequeno. desde a oração cochichada. da febre sob as cobertas. do sinal da cruz no meio da noite. o mesmo desde sempre. um medo que me persegue. me atormenta. me atrapalha. que aparece no canto do quarto. no abrir dos armários. em vulto pelos corredores. em visão pela casa vazia. miragem pela praia deserta. ruído no meio do silêncio. grito durante a madrugada. eu tenho um medo morto. ressucitado. um medo tantas vezes enterrado. mas que sempre volta. que cava a terra ao contrário. para acabar comigo e ser mais uma vez trancado. escondido na gaveta de baixo, com corrente e cadeado. um medo que sempre escapa. foge. eu tenho um medo que sempre espera minha chegada, sorrindo. bem no meio da sala.

Eduardo Baszczyn

quarta-feira, fevereiro 28, 2007



Amor em tons de cachaça,
arrebenta-peitos.

Foste uma pedrada no meu coração.






sexta-feira, fevereiro 23, 2007

sexta-feira, fevereiro 16, 2007


The passion of Dance, Richard Judson Zolan




aqui busco uma letra que não quer. e como
a agonia da palavra muda. mas já não me canso do que sinto velho.


quarta-feira, fevereiro 14, 2007

fragmento para honey-Lú, honey-Zão, honey-Sil, honey-Pipa, honey-Mô. hoje a poesia tirou férias.

Summer of 1909, Frank Weston Benson



Os homens criaram datas para rezar, dançar e até para comer chocolates. Só se esqueceram de que não existem horas para ser feliz. Nem para morrer.


uma merda só hoje. não sei porque o dicionário do meu computador insiste em não aceitar esta palavra. merda. foda-se agora. tá tudo uma merda mesmo. triste sabe?, nada a ver com depressão. apenas triste. a vida tem cada coisa, honey. que custo a entender. e, no fim, não entendo mesmo. nem tomei banho ontem. e, surpresa, ou não: não me importo. estas calças e estes tênis não me deixam sentar confortável. e o palito com o qual prendo os meus cabelos machuca a minha nuca. sonhei que andava só de camisola. camisolinha. mas, acordada, sei: não sou mais criança. uma pena. ser gente grande é das coisas mais doídas que já vi. pior do que quando a mamadeira atrasa. sinto dores nas costas. e um sono que me faria dormir mil anos. se pudesse. e quem pode? só os mortos mesmo têm esta regalia. e tem muito sangue preso por aqui. talvez até demais. sorry pelas palavras duras. sorry, também, por usar palavras não nossas. mas algumas coisas precisam ser ditas em línguas estranhas. para que eu pense que continuam a ser segredos só meus. meus cigarros acabam incrivelmente rápido. ou é meu tempo que anda lento? não sei. mas, que saber?, em meio a tudo isto que desconhecemos já não sei mais o que é secreto e o que pode ser escancarado, gritado aos berros. roucos. porque a voz é fraca. ou, então, porque não sabe falar. hoje: nada na agenda. muito bom. ou não. percebe que não decido nada... meu lugarzinho é mesmo em cima do muro. de onde vejo a vida passar. e ela vai passando passando... e comprar sapatos não ameniza nada. só me faz sentir que tenho pés a menos. sinto preciso de uma ligação. um fio que me segure. mesmo que um fiozinho prata numa embalagem de presente. estou na linha, querida, mas nem mesmo o trem passa para me dizer: hi, dear, quero passar. então eu fico. como, talvez, sempre tenha ficado. mais um cigarro. e um chorinho de criança no fundo. junto às marteladas do pedreiro do vizinho. carros e carros e carros. os sons existem. mas o silêncio é ensurdecedor. não os sons. da vida de fora. mas o silêncio. daqui. das palavras que não vêm nunca. nunca. nunca. nunca mesmo.
então, que fazer?
me calo. nos pés.
te amo.

bisou .

terça-feira, fevereiro 13, 2007


Dying

Is an art, like everything else.
I do it exceptionally well.

(Sylvia Plath)






segunda-feira, fevereiro 12, 2007

"você prefere sexo ou Häagen-Dazs?"

Romance Barato, de Celso Cruz, interpretado por Carlos Rahal



 
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