quinta-feira, abril 26, 2007

Love Letters, Charles Trevor Garland


casais normais

buscam consumar

uma simbiose


na parte que me cabe

busco ao teu lado

uma outra solidão



Pierre Masato
http://maleficobar.blogspot.com/


sexta-feira, abril 20, 2007

página de autobiografia explícita

Ecstasy, Maxfield Parrish


nos supermercados do mundo
liquidei - me dono de tudo
sem saudades do que fui
hoje não mais me iludo
com máscaras de demiurgo
ou qualquer papel de fundo
assumo o desejo bruto
sentimento irresolúvel e impuro
fruto do mais direto prelúdio
a um espírito sem contramuros



[do livro Simulações] Sandro Ornellas

domingo, abril 15, 2007

encore

Mada Primavesi, Gustav Klimt



não fico mais.
as ruas estão cansadas dos barulhos das castanholas.
tacos de saltos,
tudo é rouco.

sarjetas velhas me pedem a última dose.
eu canto baixo
e dou um tiro.

saúdo os que se recolhem antes.
te prego cinco vezes na mesma cruz
fumo os filtros dos amores teus
e tinjo a casa do vermelho que sobraste.

eu também temo.



sábado, abril 07, 2007

Death and Life (detalhe), Gustav Klimt


nada fala
tira de papel
lápis sem ponta para dizer de ti.

não quero mais saber de horas
instante fechado no colo da moça branca.

e já não é bela.
tem vinte e nove
filhos postiços dentes de mentira clareada.
cola os pedaços da cara quebrada
em meio aos cetins das festas que não foram.
entendes, agora, por que me esvaio?

me nivelo na parede rouca
da aspereza dos encantos teus.
ah, deus da boca silente,
montador de rimas das palavras minhas.

uma unha quebrada
na balada da noite meia. a vida
cala e consente no meio-fio.
navalha de prata. velha.

e tudo cheira a mofo aqui.

é como se me roubasses o coração.
e os dedos.
escondo as balas para que a criança não as veja.
e não me leve também os meus cabelos.



terça-feira, abril 03, 2007

Starry Night, Vincent van Gogh


"Je ne suis rien.
Je ne serai jamais rien.
Je ne peux vouloir être rien.
À part ça, je porte en moi tous les rêves du monde."



Bureau de Tabac - Fernando Pessoa




quinta-feira, março 29, 2007

Bonjour Tristesse, Martin Eder



na rasgadura do peito exposto
você foi mais um pouco...



terça-feira, março 27, 2007

Jean loup Sieff



“...Letra maiúscula também sangra...”


Ednei Pereira Rodrigues


sábado, março 24, 2007




Amo-te como o vinho e como o sono,
Tu és meu copo...


Álvares de Azevedo, em “A Lagartixa”





sábado, março 17, 2007

Reinhard Simon



a transitoriedade das coisas táteis.


teu não-falar.
vasinho partido que eu colei quieta.
no vão entre a cômoda e a escavadeira.





quinta-feira, março 08, 2007

Durwood Zedd



o moço dos pés descalços
era o menino com sandálias de couro.
dedinhos sujos.

tinha os cabelos em caracóis
e mãozinhas pequeninas.
mamava mamadeira.

usava um colar de sementes que arrebentou
e uma camisa com o desenho de um cocar.
tomava tragos largos
fumava cigarros baratos
tinha quatro mulheres de uma vez


e eu o amei por seiscentos e sessenta e seis dias.


o número da besta.
eu.





terça-feira, março 06, 2007

Casa das Rosas. Rascunho número dois. Tema: A máquina. De escrever.

José Paulo Andrade,
www.pbase.com/jandrade


e mesmo que passado o tempo
das folhas velhas das saudades findas,

eu grito, ainda:
quero de volta
minha Olivetti
1977!

eu preciso rasgar meu coração.




sábado, março 03, 2007

mais uma vez. as palavras da gaveta. do fundo. porque algumas coisas se repetem. sempre.

Études pour - Les trois singes, Francine Van hove


Medo

eu tenho um medo. guardado na gaveta de baixo, bem no fundo, com corrente e cadeado. eu tenho um medo trancado. debaixo das revistas velhas. dos cadernos usados. dos livros já lidos. dos papéis amarrotados. eu tenho um medo escondido. pior que de escuro, lugar alto, homem do saco. um medo segredo. o mesmo, desde pequeno. desde a oração cochichada. da febre sob as cobertas. do sinal da cruz no meio da noite. o mesmo desde sempre. um medo que me persegue. me atormenta. me atrapalha. que aparece no canto do quarto. no abrir dos armários. em vulto pelos corredores. em visão pela casa vazia. miragem pela praia deserta. ruído no meio do silêncio. grito durante a madrugada. eu tenho um medo morto. ressucitado. um medo tantas vezes enterrado. mas que sempre volta. que cava a terra ao contrário. para acabar comigo e ser mais uma vez trancado. escondido na gaveta de baixo, com corrente e cadeado. um medo que sempre escapa. foge. eu tenho um medo que sempre espera minha chegada, sorrindo. bem no meio da sala.

Eduardo Baszczyn

quarta-feira, fevereiro 28, 2007



Amor em tons de cachaça,
arrebenta-peitos.

Foste uma pedrada no meu coração.






sexta-feira, fevereiro 23, 2007

sexta-feira, fevereiro 16, 2007


The passion of Dance, Richard Judson Zolan




aqui busco uma letra que não quer. e como
a agonia da palavra muda. mas já não me canso do que sinto velho.


quarta-feira, fevereiro 14, 2007

fragmento para honey-Lú, honey-Zão, honey-Sil, honey-Pipa, honey-Mô. hoje a poesia tirou férias.

Summer of 1909, Frank Weston Benson



Os homens criaram datas para rezar, dançar e até para comer chocolates. Só se esqueceram de que não existem horas para ser feliz. Nem para morrer.


uma merda só hoje. não sei porque o dicionário do meu computador insiste em não aceitar esta palavra. merda. foda-se agora. tá tudo uma merda mesmo. triste sabe?, nada a ver com depressão. apenas triste. a vida tem cada coisa, honey. que custo a entender. e, no fim, não entendo mesmo. nem tomei banho ontem. e, surpresa, ou não: não me importo. estas calças e estes tênis não me deixam sentar confortável. e o palito com o qual prendo os meus cabelos machuca a minha nuca. sonhei que andava só de camisola. camisolinha. mas, acordada, sei: não sou mais criança. uma pena. ser gente grande é das coisas mais doídas que já vi. pior do que quando a mamadeira atrasa. sinto dores nas costas. e um sono que me faria dormir mil anos. se pudesse. e quem pode? só os mortos mesmo têm esta regalia. e tem muito sangue preso por aqui. talvez até demais. sorry pelas palavras duras. sorry, também, por usar palavras não nossas. mas algumas coisas precisam ser ditas em línguas estranhas. para que eu pense que continuam a ser segredos só meus. meus cigarros acabam incrivelmente rápido. ou é meu tempo que anda lento? não sei. mas, que saber?, em meio a tudo isto que desconhecemos já não sei mais o que é secreto e o que pode ser escancarado, gritado aos berros. roucos. porque a voz é fraca. ou, então, porque não sabe falar. hoje: nada na agenda. muito bom. ou não. percebe que não decido nada... meu lugarzinho é mesmo em cima do muro. de onde vejo a vida passar. e ela vai passando passando... e comprar sapatos não ameniza nada. só me faz sentir que tenho pés a menos. sinto preciso de uma ligação. um fio que me segure. mesmo que um fiozinho prata numa embalagem de presente. estou na linha, querida, mas nem mesmo o trem passa para me dizer: hi, dear, quero passar. então eu fico. como, talvez, sempre tenha ficado. mais um cigarro. e um chorinho de criança no fundo. junto às marteladas do pedreiro do vizinho. carros e carros e carros. os sons existem. mas o silêncio é ensurdecedor. não os sons. da vida de fora. mas o silêncio. daqui. das palavras que não vêm nunca. nunca. nunca. nunca mesmo.
então, que fazer?
me calo. nos pés.
te amo.

bisou .

terça-feira, fevereiro 13, 2007


Dying

Is an art, like everything else.
I do it exceptionally well.

(Sylvia Plath)






segunda-feira, fevereiro 12, 2007

"você prefere sexo ou Häagen-Dazs?"

Romance Barato, de Celso Cruz, interpretado por Carlos Rahal



terça-feira, fevereiro 06, 2007


Alee in Park Von Schloss Kammer, Klimt




Herr Doktor,
te pago fortunas de quartos de horas a preço de poemas natimortos. Você me poda feito flores baças. Sim, Doktor, eu entendo. Apenas (re)sinto que sangra.




segunda-feira, fevereiro 05, 2007







auri sacra fames





sexta-feira, fevereiro 02, 2007


Mathematical Bridge, Cambridge, UK
Lady Lazarus



I have done it again.
One year in every ten
I manage it-----

A sort of walking miracle, my skin
Bright as a Nazi lampshade,
My right foot

A paperweight,
My face a featureless, fine
Jew linen.

Peel off the napkin
O my enemy.
Do I terrify?-----

Yes, yes Herr Professor
It is I.
Can you deny

The nose, the eye pits, the full set of teeth?
The sour breath
Will vanish in a day.

Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me

And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.

This is Number Three.
What a trash
To annihilate each decade.

What a million filaments.
The peanut-crunching crowd
Shoves in to see

Them unwrap me hand and foot-----
The big strip tease.
Gentlemen, ladies

These are my hands
My knees.
I may be skin and bone, I may be Japanese,

Nevertheless, I am the same, identical woman.
The first time it happened I was ten.I
t was an accident.

The second time I meant
To last it out and not come back at all.
I rocked shut

As a seashell.
They had to call and call
And pick the worms off me like sticky pearls.

Dying
Is an art, like everything else.
I do it exceptionally well.

I do it so it feels like hell.
I do it so it feels real.
I guess you could say I've a call.

It's easy enough to do it in a cell.
It's easy enough to do it and stay put.
It's the theatrical

Comeback in broad day
To the same place, the same face, the same brute
Amused shout:

'A miracle!'
That knocks me out.
There is a charge.

For the eyeing of my scars, there is a charge
For the hearing of my heart-----
It really goes.

And there is a charge, a very large charge
For a word or a touch
Or a bit of blood

Or a piece of my hair or my clothes.
So, so, Herr Doktor.
So, Herr Enemy.

I am your opus,
I am your valuable,
The pure gold baby

That melts to a shriek.
I turn and burn.
Do not think I underestimate your great concern.

Ash, ash--
You poke and stir.
Flesh, bone, there is nothing there-----

A cake of soap,
A wedding ring,
A gold filling.

Herr God, Herr Lucifer
Beware
Beware.

Out of the ash
I rise with my red hair

And I eat men like air.


Sylvia Plath
-

quinta-feira, fevereiro 01, 2007


Maria tinha se cansado de pensar. E de ler sobre o que pensara. Suas teorias, hipóteses, suas especulações sistematizadas, seus pensamentos avaliados, as suposições desenvolvidas, tudo isso a tinha cansado. A teoria das pedras a estava devorando. Toda a ciência acumulada a estava consumindo. Queria mais era passar a mão no telefone. E discar os números da sorte. Ou da falta dela.


quarta-feira, janeiro 31, 2007

Isabelle, Francine Van Hove

Medo

eu tenho um medo. guardado na gaveta de baixo, bem no fundo, com corrente e cadeado. eu tenho um medo trancado. debaixo das revistas velhas. dos cadernos usados. dos livros já lidos. dos papéis amarrotados. eu tenho um medo escondido. pior que de escuro, lugar alto, homem do saco. um medo segredo. o mesmo, desde pequeno. desde a oração cochichada. da febre sob as cobertas. do sinal da cruz no meio da noite. o mesmo desde sempre. um medo que me persegue. me atormenta. me atrapalha. que aparece no canto do quarto. no abrir dos armários. em vulto pelos corredores. em visão pela casa vazia. miragem pela praia deserta. ruído no meio do silêncio. grito durante a madrugada. eu tenho um medo morto. ressucitado. um medo tantas vezes enterrado. mas que sempre volta. que cava a terra ao contrário. para acabar comigo e ser mais uma vez trancado. escondido na gaveta de baixo, com corrente e cadeado. um medo que sempre escapa. foge. eu tenho um medo que sempre espera minha chegada, sorrindo. bem no meio da sala.
Eduardo Baszczyn

domingo, janeiro 21, 2007

Embriaguei-me.

Afternoon Tea, Richard Boyer
 
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