segunda-feira, janeiro 14, 2008
segunda-feira, dezembro 24, 2007
a catarse um. ou das efêmeras inspirações.
domingo, novembro 25, 2007
...
pontaria
equilibrada sobre o pé direito, mais uma vez, a menina desistiu da brincadeira. nunca. atirada de sua mão, a maldita pedra nunca caía no céu. no pequeno espaço, para poucos, desenhado com giz, no final da amarelinha.
quarta-feira, outubro 10, 2007
ode to my family
A mãe roubou quatro mil dinheiros da filha pequena
para pagar as contas da boutique.
A família toda gritou em silêncio. E ninguém disse palavra.
Virou segredo confinado.
No dia seguinte todos tomavam café juntos.
E se riam alegres.
A família estava doente.
E o único parente lúcido tomava antidepressivos.
quarta-feira, outubro 03, 2007
em laboratório
do décimo segundo andar
confortável sala de veludo e vidro café da manhã
avistamos as vassouras agitadas
do edifício ao lado.
é domingo.
e
de repente
o amargo do café preto
escurece o laranja do suco de frutas colhidas
no interior do país
tropical.
.
quarta-feira, setembro 26, 2007
terça-feira, setembro 11, 2007
sweetheart
quinta-feira, agosto 23, 2007
descoberta
Puberdade. Pela primeira vez ouve, na rua, um elogio masculino.
Sozinha no quarto, ela se despe. Passa e mão pelos cabelos, pelo rosto.
Se detém em cada detalhe e, assim, desvenda seu corpo até os pés. Sons de prazer, contrariedade, espanto, satisfação, mapeiam seus caminhos, orientando a memória.
O tato é seu espelho. Satisfeita, veste a roupa e o casaco. Pega a bengala, chama o cão. Sai.
sexta-feira, agosto 17, 2007
maria, a moça dos cabelos que sobraram
por que sempre o último cigarro da carteira?
carta na manga dos valetes furiosos?
Ah, cansa-me ser, assim, tão gratuitamente susto.
o moço correu pela praia, pulou das pedras.
o outro bebeu-me com gelo seco,
ficou em estado de insanidade.
aquele que meteu-me narinas adentro, hoje é abstêmio,
virou funcionário público.
E o único acautelado,
meu primeiro,
passeia feliz pelas ruas com seu conversível novo,
apenas dez anos mais velho que eu.
.
domingo, julho 29, 2007
Encruzilhada
algo me aflige e não sei o que é.
Sinto relampejos de minha existência
se não sei o que fazer nem para onde ir.
Vivo a buscar o signo que me presentifique,
que, uma vez enunciado, seja por si.
Estou exausto de ser uma representação,
Tem um bicho dentro de mim que quer
pular para fora de tudo e ser a aurora,
Ah se eu fosse o sol não arderia tanto!
José Inácio Vieira de Melo
sexta-feira, julho 13, 2007
quinta-feira, julho 12, 2007
"que horas serão para lá desta fotografia?"

esta memória lâmina incansável
um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
que sei eu sobre tempestades do sangues? e de água?
no fundo, só amo o lado escondido das ilhas
amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão
terça-feira, julho 10, 2007
segunda-feira, julho 02, 2007
rascunho.no quarto andar
Laura Burltonse estou feliz? não, não sei o que é isso, meu senhor. meus amigos correm todos. apenas um se senta e me lê uma poesia. fala coisas desconexas e fuma cinco cigarros de uma vez. um para cada sentido seu.
eu tenho um amigo que sente.
e grita. e canta. consome tudo. até o fim. engasga cospe vomita. e começa tudo mais uma vez.
não usa sapatos. tem pés descalços, à mostra.
desenha nos corpos, pinta cores no céu. e enfeita os cabelos das flores da primavera anoitecida. essa pessoa, ela, tem olhos de mares de beira de serra, coração de cumeeira. corre pra pegar a estrela que caiu do ceú... tropeça no sonho de ontem. e abre as grades das palavras esquecidas.
policromia de alma nova, de, há tanto tempo, gasta, colhe os planetas do azul, enquanto cobalto, paira,
indecifravelmente,
pelas paredes do apartamento enfumaçado.
é a pessoa mais bonita que eu vi.
segunda-feira, junho 25, 2007
sexta-feira, junho 08, 2007
“Se você me perguntar como são as pessoas daqui, eu responderei: como em todo lugar! A espécie humana é absolutamente uniforme. A maior parte trabalha quase todo o tempo para viver, e o pouco que lhes resta de liberdade amendronta-os de tal modo que procuram todos os meios para se livrarem dela. Ó, destino do homem!”
J. W. Goethe,
domingo, junho 03, 2007
sexta-feira, junho 01, 2007
sua ciência acumulava-se em folhas de papel recortadas de jornais e em rascunhos feitos a mão, metodicamente guardados em pastas empilhadas nas estantes empoeiradas do almoxarifado onde vivia.
quase tudo o que sabia jazia fora de si. guardava consigo, apenas, o sentir das coisas do mundo, sua vida. seu coração.
quarta-feira, maio 16, 2007
Sugar Blues

rolando pela escada
de incêndio do meu prédio
era você
vírgula
meu bem
vírgula
era você
interrogação
eu avisei para não brincar
de molhar meus barcos
de papel
eu avisei que não se pode viver
como se faltassem
poucos dias para o carnaval
você indo embora com o foco da coqueluche
e aliviando a vizinhança
você subindo aos céus com os passarinhos mortos
por crianças más
com estilingue
era você se desfazendo
na doce baforada
da janela aberta
numa manhã de calor
era você em pó
em papel picado
no tapete do asfalto
na roupa branca dos médicos
e no antigo toldo do açougue
do andar de baixo
agora eu vou rezar pela sua alma
por um emprego novo
e por um vício a menos
enquanto passeio pela cidade
num ônibus circular
numa quarta-feira de cinzas.
terça-feira, maio 08, 2007
porque sonhei com Al Berto naquela tarde no front.
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras galáxias, e o remorso
um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas
ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo
de «Trabalhos do Olhar» 1976/82: Sete dos Ofícios, 1980
quinta-feira, abril 26, 2007
Love Letters, Charles Trevor Garlandcasais normais
buscam consumar
uma simbiose
na parte que me cabe
busco ao teu lado
uma outra solidão
Pierre Masato
http://maleficobar.blogspot.com/
sexta-feira, abril 20, 2007
página de autobiografia explícita
liquidei - me dono de tudo
sem saudades do que fui
hoje não mais me iludo
com máscaras de demiurgo
ou qualquer papel de fundo
assumo o desejo bruto
sentimento irresolúvel e impuro
fruto do mais direto prelúdio
a um espírito sem contramuros
domingo, abril 15, 2007
encore
não fico mais.
as ruas estão cansadas dos barulhos das castanholas.
tacos de saltos,
tudo é rouco.
sarjetas velhas me pedem a última dose.
eu canto baixo
e dou um tiro.
saúdo os que se recolhem antes.
te prego cinco vezes na mesma cruz
fumo os filtros dos amores teus
e tinjo a casa do vermelho que sobraste.
eu também temo.
sábado, abril 07, 2007
nada fala
tira de papel
lápis sem ponta para dizer de ti.
não quero mais saber de horas
instante fechado no colo da moça branca.
e já não é bela.
tem vinte e nove
filhos postiços dentes de mentira clareada.
cola os pedaços da cara quebrada
em meio aos cetins das festas que não foram.
entendes, agora, por que me esvaio?
me nivelo na parede rouca
da aspereza dos encantos teus.
ah, deus da boca silente,
montador de rimas das palavras minhas.
uma unha quebrada
na balada da noite meia. a vida
cala e consente no meio-fio.
navalha de prata. velha.
e tudo cheira a mofo aqui.
é como se me roubasses o coração.
e os dedos.
escondo as balas para que a criança não as veja.
e não me leve também os meus cabelos.

















