segunda-feira, janeiro 14, 2008

la literatura

no MAC de Niterói - Novembro 2007

segunda-feira, dezembro 24, 2007

a catarse um. ou das efêmeras inspirações.




frio nos campos de trigo
luva de coração

casa dos cinco
prematuridade
tarde

fotocópia do amor
sem technicolor.
hollywoodsman

domingo, novembro 25, 2007

...

Katrin Zeidler

pontaria


equilibrada sobre o pé direito, mais uma vez, a menina desistiu da brincadeira. nunca. atirada de sua mão, a maldita pedra nunca caía no céu. no pequeno espaço, para poucos, desenhado com giz, no final da amarelinha.
Eduardo Baszczyn

quarta-feira, outubro 10, 2007

ode to my family

Marc-Riboud


A mãe roubou quatro mil dinheiros da filha pequena
para pagar as contas da boutique.
A família toda gritou em silêncio. E ninguém disse palavra.
Virou segredo confinado.
No dia seguinte todos tomavam café juntos.
E se riam alegres.
A família estava doente.
E o único parente lúcido tomava antidepressivos.





.

quarta-feira, outubro 03, 2007

em laboratório

Kalua K Krynska





do décimo segundo andar
confortável sala de veludo e vidro café da manhã
avistamos as vassouras agitadas
do edifício ao lado.
é domingo.
e
de repente
o amargo do café preto
escurece o laranja do suco de frutas colhidas
no interior do país
tropical.





.

quarta-feira, setembro 26, 2007

Sóis

Cindy Sherman


Somos sóis.
E a solidão costura,
com fios plenos de vazio,
os entre nós.


Angela Schnoor


.

terça-feira, setembro 11, 2007

sweetheart





por hora eu me contento
em te alfinetar nas encruzilhadas,
as cartas marcadas,
e em jogar granizo
no teu telhado de vidro fosco,
enquanto raspo as pontas dos meus esmaltes
e descasco um abacaxi-rei
para te servir no jantar com ovos.
fritos. dois.



quinta-feira, agosto 23, 2007

descoberta

Sophie Thouvenin



Puberdade. Pela primeira vez ouve, na rua, um elogio masculino.
Sozinha no quarto, ela se despe. Passa e mão pelos cabelos, pelo rosto.
Se detém em cada detalhe e, assim, desvenda seu corpo até os pés. Sons de prazer, contrariedade, espanto, satisfação, mapeiam seus caminhos, orientando a memória.
O tato é seu espelho. Satisfeita, veste a roupa e o casaco. Pega a bengala, chama o cão. Sai.






.

sexta-feira, agosto 17, 2007

maria, a moça dos cabelos que sobraram

Dorotka Ewentualnie


por que sempre o último cigarro da carteira?
carta na manga dos valetes furiosos?
Ah, cansa-me ser, assim, tão gratuitamente susto.

o moço correu pela praia, pulou das pedras.
o outro bebeu-me com gelo seco,
ficou em estado de insanidade.
aquele que meteu-me narinas adentro, hoje é abstêmio,
virou funcionário público.
E o único acautelado,
meu primeiro,
passeia feliz pelas ruas com seu conversível novo,
apenas dez anos mais velho que eu.


.


domingo, julho 29, 2007

Encruzilhada




algo me aflige e não sei o que é.
Sinto relampejos de minha existência
se não sei o que fazer nem para onde ir.

Vivo a buscar o signo que me presentifique,
que, uma vez enunciado, seja por si.
Estou exausto de ser uma representação,

Tem um bicho dentro de mim que quer
pular para fora de tudo e ser a aurora,

Ah se eu fosse o sol não arderia tanto!




José Inácio Vieira de Melo
"A infância do centauro", Escrituras



sexta-feira, julho 13, 2007

quinta-feira, julho 12, 2007

"que horas serão para lá desta fotografia?"


Cambridge, 2003



esta memória lâmina incansável


um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
que sei eu sobre tempestades do sangues? e de água?
no fundo, só amo o lado escondido das ilhas
amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão



Al Berto

.


.


.

terça-feira, julho 10, 2007

segunda-feira, julho 02, 2007

rascunho.no quarto andar

Laura Burlton



se estou feliz? não, não sei o que é isso, meu senhor. meus amigos correm todos. apenas um se senta e me lê uma poesia. fala coisas desconexas e fuma cinco cigarros de uma vez. um para cada sentido seu.
eu tenho um amigo que sente.
e grita. e canta. consome tudo. até o fim. engasga cospe vomita. e começa tudo mais uma vez.
não usa sapatos. tem pés descalços, à mostra.
desenha nos corpos, pinta cores no céu. e enfeita os cabelos das flores da primavera anoitecida. essa pessoa, ela, tem olhos de mares de beira de serra, coração de cumeeira. corre pra pegar a estrela que caiu do ceú... tropeça no sonho de ontem. e abre as grades das palavras esquecidas.
policromia de alma nova, de, há tanto tempo, gasta, colhe os planetas do azul, enquanto cobalto, paira,
indecifravelmente,
pelas paredes do apartamento enfumaçado.


é a pessoa mais bonita que eu vi.




segunda-feira, junho 25, 2007

a contrapartida

Denis Olivier


“não sei de que material seco são feitas
as perdas”


anéis, Bruna Beber






domingo, junho 17, 2007

La moindre des choses, Nicolas Philibert



todas as minhas beiras viriam, sempre, daqueles que não vêm a ser.




sexta-feira, junho 08, 2007

Ian Sanderson



"What did I leave untouched on the doorstep---"


Sylvia Plath







“Se você me perguntar como são as pessoas daqui, eu responderei: como em todo lugar! A
espécie humana é absolutamente uniforme. A maior parte trabalha quase todo o tempo para viver, e o pouco que lhes resta de liberdade amendronta-os de tal modo que procuram todos os meios para se livrarem dela. Ó, destino do homem!”


J. W. Goethe,
em “Os sofrimentos do jovem Werther”




domingo, junho 03, 2007

ana, a palindrômica

(closer)


você não sabe deste nó.


sexta-feira, junho 01, 2007




sua ciência acumulava-se em folhas de papel recortadas de jornais e em rascunhos feitos a mão, metodicamente guardados em pastas empilhadas nas estantes empoeiradas do almoxarifado onde vivia.
quase tudo o que sabia jazia fora de si. guardava consigo, apenas, o sentir das coisas do mundo, sua vida. seu coração.



quarta-feira, maio 16, 2007

Sugar Blues


Lillian Bassman

um corpo em chamas
rolando pela escada
de incêndio do meu prédio
era você
vírgula
meu bem
vírgula
era você
interrogação

eu avisei para não brincar
de molhar meus barcos
de papel

eu avisei que não se pode viver
como se faltassem
poucos dias para o carnaval

você indo embora com o foco da coqueluche
e aliviando a vizinhança
você subindo aos céus com os passarinhos mortos
por crianças más
com estilingue

era você se desfazendo
na doce baforada
da janela aberta
numa manhã de calor

era você em pó
em papel picado
no tapete do asfalto
na roupa branca dos médicos
e no antigo toldo do açougue
do andar de baixo

agora eu vou rezar pela sua alma
por um emprego novo
e por um vício a menos
enquanto passeio pela cidade
num ônibus circular
numa quarta-feira de cinzas.



Bruna Beber

terça-feira, maio 08, 2007

porque sonhei com Al Berto naquela tarde no front.

já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras galáxias, e o remorso

um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo

Al Berto
de «Trabalhos do Olhar» 1976/82: Sete dos Ofícios, 1980


quinta-feira, abril 26, 2007

Love Letters, Charles Trevor Garland


casais normais

buscam consumar

uma simbiose


na parte que me cabe

busco ao teu lado

uma outra solidão



Pierre Masato
http://maleficobar.blogspot.com/


sexta-feira, abril 20, 2007

página de autobiografia explícita

Ecstasy, Maxfield Parrish


nos supermercados do mundo
liquidei - me dono de tudo
sem saudades do que fui
hoje não mais me iludo
com máscaras de demiurgo
ou qualquer papel de fundo
assumo o desejo bruto
sentimento irresolúvel e impuro
fruto do mais direto prelúdio
a um espírito sem contramuros



[do livro Simulações] Sandro Ornellas

domingo, abril 15, 2007

encore

Mada Primavesi, Gustav Klimt



não fico mais.
as ruas estão cansadas dos barulhos das castanholas.
tacos de saltos,
tudo é rouco.

sarjetas velhas me pedem a última dose.
eu canto baixo
e dou um tiro.

saúdo os que se recolhem antes.
te prego cinco vezes na mesma cruz
fumo os filtros dos amores teus
e tinjo a casa do vermelho que sobraste.

eu também temo.



sábado, abril 07, 2007

Death and Life (detalhe), Gustav Klimt


nada fala
tira de papel
lápis sem ponta para dizer de ti.

não quero mais saber de horas
instante fechado no colo da moça branca.

e já não é bela.
tem vinte e nove
filhos postiços dentes de mentira clareada.
cola os pedaços da cara quebrada
em meio aos cetins das festas que não foram.
entendes, agora, por que me esvaio?

me nivelo na parede rouca
da aspereza dos encantos teus.
ah, deus da boca silente,
montador de rimas das palavras minhas.

uma unha quebrada
na balada da noite meia. a vida
cala e consente no meio-fio.
navalha de prata. velha.

e tudo cheira a mofo aqui.

é como se me roubasses o coração.
e os dedos.
escondo as balas para que a criança não as veja.
e não me leve também os meus cabelos.



terça-feira, abril 03, 2007

Starry Night, Vincent van Gogh


"Je ne suis rien.
Je ne serai jamais rien.
Je ne peux vouloir être rien.
À part ça, je porte en moi tous les rêves du monde."



Bureau de Tabac - Fernando Pessoa




 
Free counter and web stats